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Psicopatia ou Sociopatia: por que precisamos falar sobre isso?

10 de abril de 2017

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João Luiz da Fonseca Martins

A notícia da liberdade provisória do Bruno, ex-goleiro do Flamengo, veiculada na mídia recentemente, acusado de ser o mandante do assassinato de sua ex-namorada, fez com que várias pessoas ficassem revoltadas com a Justiça pela possibilidade de convivência em sociedade com uma pessoa que supostamente pode ter um transtorno mental. Entretanto, a relação com pessoas com esse comportamento é mais frequente do que se imagina.

Cada indivíduo é considerado único como pessoa, mas podemos classificá-los dentro de modos comuns de agir frente a situações cotidianas. Existem nove principais subdivisões de personalidades na classificação internacional de doenças. Não necessariamente isto requer tratamento e varia de acordo com a intensidade de sintomatologia presente e o dano verificado com o modo de funcionamento do indivíduo.

Muitos desconhecem os significados das palavras psicopatia ou sociopatia, porém ambas se referem à mesma doença. Estes termos foram cunhados de um dos nove distúrbios de personalidade, chamado de antissocial ou dissocial. E está presente em 1% da população geral e em 40% da população carcerária. Coloco estes dados estatísticos, pois muitas pessoas não têm a percepção do quanto este modo de funcionamento dos indivíduos com esta patologia está próximo a elas.

As principais características das pessoas com esse padrão de funcionamento são um egocentrismo patológico (pensamento centrado no eu e em suas vontades/desejos); falta de empatia (de se colocar no lugar de outra pessoa/falta de consideração pelo sentimento alheio); baixa capacidade de tolerância a frustração; desprezo por regras, leis e obrigações e isto pode frequentemente levá-las à terem problemas de ordem legal. São indivíduos com muito poder de sedução e manipulação e agem de forma cínica em busca de sua satisfação pessoal.

São pessoas que conquistam lugar de destaque na sociedade e ocupam cargos importantes/influentes (podem ser advogados, médicos, empresários, engenheiros e, principalmente, políticos). Portanto, são profissionais considerados formadores de opinião, de regras e leis.

Cito exemplos frequentes no cotidiano para ilustração:

1- Colega de trabalho que entrega ao chefe/superior na empresa, algum comentário maldoso que outro trabalhador com cargo mais elevado que o seu, proferiu em conversa informal, com intuito de conquistar o lugar dele na empresa, obtendo, assim, crescimento interno e valorização salarial.

2- Pais separados e um dos genitores constantemente exerce influência negativa sobre os filhos ao falar de forma constante e depreciativa do ex-cônjuge com intuito de afastá-lo do convívio com eles.

3- Político que se envolve em negociações fraudulentas para ganhos financeiros maiores e sem dor na consciência se isso fará os alunos de escolas, por exemplo, ficarem sem merenda.

Ações de mentiras constantes, impulsividade, envolvimento com drogas, crime organizado, roubo, prostituição, maus tratos a animais, ausência de remorso, irresponsabilidade e irritabilidade são muito frequentes no desenvolvimento do indivíduo sociopata até a fase adulta. Lembro que não há necessidade de todos estarem presentes, apenas alguns destes podem ser observados.

Dentre as principais causas são encontrados fatores genéticos e abusos na infância (maus tratos, desprezo de familiares, desamparo, humilhações, estupro, etc.). Alterações comportamentais são frequentemente identificadas por atitudes agressivas verbais e físicas com familiares e terceiros, impulsividade e inadequação social.

O tratamento é indispensável, porém ainda pouco utilizado por falta de conhecimento e obrigação. A sociedade tem dificuldade em identificar pessoas com esse padrão de funcionamento e, quando ocorre a percepção, não veem como doença e, sim, como pessoas aproveitadoras ou maldosas.

A lei não impõe o tratamento psiquiátrico a estes indivíduos presos ou em liberdade condicional.

O tratamento deve ser feito com a possibilidade de uso de vários medicamentos, visando controle de impulso, aquisição de tolerância, promoção de empatia e adequação às regras legais. A psicoterapia é fundamental para conscientização e promoção do ajuste de conduta com a determinação de limites rígidos. A divulgação destas informações e a procura por atendimento especializado são importantíssimas. Não conseguiremos formar uma sociedade melhor se formos influenciados ou regidos por pessoas com este padrão de funcionamento.
*João Luiz da Fonseca Martins é psiquiatra e médico responsável técnico e de supervisão multidisciplinar na UNIICA

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